1945 -1967


Porque morreu o DKW ?
O grande doente morreu. Estamos falando do DKW, o primeiro automóvel brasileiro. Seus 110 mil donos estão tristes; e também preocupados: o que irá acontecer com a frota VEMAG rodando no país? Haverá assistência? Estará garantida a reposição de peças? E quais serão as conseqüências econômicas resultantes da paralisação da VEMAG? Nas centenas de cartas que chegaram à redação de Quatro Rodas nos últimos dias, essas perguntas aparecem com dramática regularidade. São de brasileiros que gastaram NCR$ 10.690,00 por um VEMAG-67 (aproximadamente 100 salários mínimos) e que agora acabam ter feito o pior negócio de sua vida. São dúvidas e comentários perplexos, que merece uma resposta, talvez tranqüilizadora. O que aconteceu na VEMAG, qual será o futuro da 1ª fábrica de carros brasileiros e qual o futuro dos 110.000 donos de carros VEMAG? Tudo isto está explicado nas páginas seguintes numa reportagem de José Roberto Penna, que conta POR QUE MORREU O DKW.
Os Anos Negros

Segundo um antigo diretor, a Vemag começou errada, lançando ações no mercado ao mesmo tempo que a Willys, criando uma competição difícil. Talvez seja verdade, mas alguns atribuem o fracasso também à falta de planejamento e de maior experiência na área industrial. Junte-se a isso a estabilidade econômica do país, a inflação que desvalorizava o seu capital, a mudança de orientação governamental após a saída de Juscelino e, a Vemag tinha seus alicerces abalados, veio a crise de 1961 com a renúncia de Jânio, enquanto a indústria começava a mudar de comandante; Domingos Fernandes Alonso afastava-se, deixando em seu lugar o genro, Lélio de Toledo Piza. Mais tarde, em abril de 1964 os negócios estavam praticamente paralisados. A situação era negra para a Vemag: dois mil carros no pátio, falta de capital de giro, revendedores sem crédito (a venda à vista era impossível) e a produção limitada a 40 unidades diárias. Enquanto as outras indústrias de automóveis tinham cobertura de suas matrizes, a Vemag aguentava-se só. Mas não se entregava. Chegou o estado-novo e com ele forte recessão no mercado. Não se vendia. O pátio continuava cheio de carros. A Vemag cambaleava. A luta era em duas frentes: a econômica e a administrativa. A falta de um planejamento racional transforma a Vemag, em certas ocasiões, num semi-caos. A começar pela localização, ao lado de um brejo, na época de chuva, todo o local transformava-se num pântano. Muitas e muitas vezes, funcionários foram recrutados às pressas para retirar carros zero km do pátio inundado. Em termos de engenharia, não era uma indústria. E por exemplo, terminava-se o pavilhão destinado às prensas, quando o cimento foi rebentado - a diretória mudara de idéia, as prensas seriam instalados em outro local. Outra vez, a fábrica teve problemas com alguns fornecedores e durante meses o carro foi vendido sem o macaco. Depois foi a vez dos cinzeiros: o estoque estava desfalcado e os cinzeiros velhos foram recuperados para os carros da linha. Ao lado disso surgiam campanhas periódicas de concorrentes: era o câmbio fraco que poderia quebrar a qualquer momento, portas que se abriam em sentido contrário - apelidadas de portas "suicidas" (a Vemag mudou as portas), o virabrequim tinha um som estranho e perigoso, o óleo misturado na gasolina (o que é uma vantagem mas nunca foi encarado com tal). Paradoxalmente, a Vemag nunca se preocupou muito com os concorrentes e não se interessava como devia em comparar defeitos e qualidades com outros automóveis. As cores dos novos lançamentos eram escolhidas sem muito critério e diversas vezes a combinação com o estofamento dependia somente da disponibilidade do estoque.
O Fim da Luta  

Em 1964 na Alemanha, a Volkswagenwerk adquiria metade das ações da Auto Union, tornando-se sua proprietária juntamente com a Daimler Benz. Para a Vemag, isso representou o início de uma grande guerra de nervos da renovação ou não da licença para fabricar carros DKW. Antes que a bomba estourasse a Vemag resolveu agir. Manteve contatos com a Citröen e a Peugeot para construir novos automóveis. Mas a situação financeira da Vemag não encorajava e os planos foram abandonados. Surgiu então a Fiat e iniciaram-se as negociações. Iam em bom caminho quando foram bruscamente cortadas pelo seu ex-presidente já falecido, Valeta, ao mesmo tempo em que a indústria italiana anunciava que iria fabricar carros na Rússia, suspendendo os contatos com a Vemag. Não havia mais esperança. De qualquer maneira a Vemag entrou em 1966 disposta a lutar. E dobrou a produção para 80 unidades diárias. Mas era impossível produzir tanto, dava prejuízo. O excesso de funcionários, o alto custo do veículo, as vendas difíceis, o pátio cheio e a falta de financiamento repercutiram diretamente na linha. Foi preciso reduzir a produção deficitária para 60/70 unidades, tentando contrabalançar as despesas.
Nessa mesma época, as outras fábricas começavam a preparar o mercado para novos lançamentos. A Vemag sentia o perigo de uma concorrência violenta e jogava no escuro com os cofres quase vazios. No dia 8 de novembro de 1966, Létio de Toledo Piza, presidente da Vemag, convoca os jornalistas e declara que a Vemag se associava à Volkswagenwerk. Menos de um mês depois, os estatutos da Vemag eram reformulados e reestruturava-se a diretoria, com o cargo de 1º vice presidente ocupado por Friederich Wilheim Schultz Wenk. Era o fim de uma grande batalha. Agora, o problema se resume numa pergunta: qual será o futuro do parque fabril Vemag e sua ferramentaria que foi considerada uma das maiores da América do Sul. A palavra corrente é, parte da máquinas (principalmente as de usinagem de motores), seriam transferidas para Santa Fé, na Argentina e continuariam a produzir; outras, aproveitadas pela Volks, como as grandes prensas para estampar carroçaria do "Brasília".
O Belcar, Fissore e Vemaguet terão outro destino: vida longa com assistência garantida durante alguns anos. Os preços cairão bastante, mas depois assim como ocorreu com o Dauphine terão seu valor estabilizado numa faixa própria. Grande parte da frota de 110.000 DKW existentes no país está em mãos de motoristas de táxi e continuarão na praça prestando bons serviços. Mas também são muitos os que aguardam ansiosamente o fim do processo de produção da Vemag para adquirir DKW a preço baixo e compensador pois o carrinho continua despertando entusiasmo e tão cedo não cairá no esquecimento do público.
EXTRAIDO DA REVISTA 4 RODAS -
Nº 88 - NOVEMBRO 1967

Curiosidades sobre DKW ?
Galeria do DKW
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O material apresentado nas páginas do DKW
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Robson de Souza - http://www.geocities.com/dkwvemag

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