Cronologia da Queda

Praia do Flamengo, 132 - Rio, Junho/1980

1º. Dia:

Soube nos corredores da EBA (Escola de Belas Artes da UFRJ) que o prédio da UNE tinha sido tomado pelos meganhas, corri para procurar o Wagner e dar a ele a notícia - naquele dia ele não tinha vindo para o Fundão. Pensei em pegar meu carro e ir até sua casa. Fui ao orelhão perto do prédio da engenharia e liguei para ele. Wagner já sabia, disse para ir me encontrar com ele na praça XV - de lá fomos comprar filmes e rumamos para a frente do prédio da UNE na Praia do Flamengo, 132. Ele foi se reunir com pessoas ligadas aos DCEs de outras universidades e me pediu que documentasse tudo.

À tarde houve uma mobilização e fomos para o auditório da OAB (aqui tenho uma dúvida sobre o local) onde diversos jornalistas, deputados e estudantes lançaram propostas de ação para impedir a derrubada do prédio que já havia sido decretada - tenho fotos desta reunião. À noite houve uma reunião no CEU (Casa do Estudante Universitário) na Av. Rui Barbosa, onde novamente outras propostas foram tiradas - participaram desta reunião somente presidentes dos DCEs - tenho fotos desta reunião. Ficou marcado para o dia seguinte um ato público e uma vigília em frente ao prédio.


2º. Dia:

Comecei a fotografar às 8:00H da manhã - já havia uma tropa de choque e manifestantes chegando ao local - tenho fotos com diversos grupos com faixas dando apoio ao movimento. Jornalistas e deputados também discursaram inclusive com uso de megafones. O dia foi relativamente tranqüilo a não ser pelo fato dos meganhas isolarem a frente do prédio e pedirem o afastamento dos manifestantes, houve um certo tumulto mas, nada além disso.

3º. Dia:

Novamente por volta da 8:00H fui para a frente do prédio - já havia mais tropas de choque e um carro "Brucutu". Neste dia a cara dos policiais militares estava fechada, diferente do dia anterior, onde se via alguns sorrisos em seus rostos. Reforços às tropas chegaram no início da tarde em caminhões da polícia militar. Alguns Opalas pretos e camburões chegaram e fecharam as Ruas Dois de Dezembro, Machado de Assis, Corrêa Dutra e Buarque de Macedo - dava pra sentir no ar que o tempo ia fechar. Rolaram alguns discursos, inclusive da minha amiga Kika que era do DCE da UFRJ e o número de manifestantes foi o maior dos três dias.

Perto do final da tarde as tropas se fecharam em blocos e começaram a bater os cacetetes nos escudos. Aqui, documentei uns tiras infiltrados no meio dos manifestantes que começaram a atirar pedras nas tropas - foi o início da pancadaria, o "Brucutu" dispersando os manifestantes com jatos d'água e um corre-corre geral - tenho fotos destes policiais à paisana no meio da manifestação do dia anterior - pois o filme que continha as fotos do delegado mandando os meganhas usarem balas de verdade e da prisão de pessoas foi o tal que tive que alterar a sensibilidade, e me confiscaram no DPPS. Outros dois rolos ficaram quietinhos comigo dentro da minha cueca.


4º. Dia:

Tenho outros detalhes curiosos como o do pipoqueiro que foi preso junto conosco - quando o pau quebrou, ele meteu a mão dentro do seu carrinho de pipocas, jogou pra cima e gritou: "Abaixo a Ditadura!" Levou uma gravata de um samango e foi jogado dentro de um camburão.

O lance da minha prisão teve cenas emocionantes, aconteceu assim: O delegado que ordenou os tiros com balas de verdade e que eu estava de costas pra ele e próximo à sua viatura - Disse: Atirem pra aleijar, troquem os cartuchos! Afastei-me e comecei a fotografar cheio de adrenalina - ele me viu e passou um rádio pra alguém - em segundos vi um negão do tamanho de uma geladeira (depois, no DPPS vim saber seu singelo apelido - Mão-de-Onça) vindo em minha direção com um sarrafo cheio de pregos espetados, saí correndo em direção à rua Machado de Assis - meu primo que ia embora num táxi me viu fugindo, abriu a porta e me chamou pra entrar, agradeci e disse que ia dar a volta correndo até o Largo do Machado, foi o que fiz, dei um tempo por lá e voltei pela rua Dois de Dezembro - foi aí que um Opala me fechou, subindo em cima da calçada, o Mão-de-Onça saiu de dentro - neste momento quase me caguei (desculpem!), me deu um soco nas costelas, perdi o ar, e me empurrou para dento do Opala - e foi me dando porrada nas costelas até o DPPS (Rua da Relação) e dizendo: "quando chegarmos lá você vai dizer pra quem trabalha".

Nossa sorte, minha e dos outros que foram presos, inclusive o pipoqueiro - estavam junto comigo alguns estudantes do DCE da UERJ - é que já havia uma movimentação na porta do DPPS para soltar as pessoas que tinham sido presas - entre o pátio e a sala do delegado, escondi os 2 filmes em minha cueca. Levamos um esporro do delegado, fomos chamados de tudo que se possa imaginar - eu particularmente fui chamado de "Trotskista de merda". Depois, quando fui chamado à sala do delegado no meio da madrugada, me mostraram um filme que eles não conseguiram revelar (o filme que me tomaram), de "fotógrafo bunda-mole". No dia seguinte, subornamos o carcereiro com promessas de grana, pra que ele nos conseguisse um jornal do dia - no O Globo que ele trouxe, a matéria sobre o evento, dava conta que os manifestantes presos já haviam sido libertados por volta das 8:30H da manhã - aí gelamos, pois ainda estávamos guardados e passou por nossas cabeças todo o tipo de coisas como, "vão acabar com a gente". Os reitores da UFRJ e da UERJ acionaram a imprensa e alguns juristas e me lembro que o Luís Abramo mais um monte de gente foi levar no DPPS um pedido de soltura. Meu pai particularmente pediu ajuda a um general para interceder em meu favor - vê se pode!


5º. Dia:

Passamos mais uma noite e no dia seguinte ao meio dia, devolveram nossas roupas, inclusive minha máquina, mandaram a gente seguir pro pátio, onde entramos num camburão da polícia civil, (ainda levei um safanão fortíssimo na nuca, do Mão-de-Onça) ficaram rodando com a gente até às três da tarde num calor fdp e foram nos soltar em Vicente de Carvalho.

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